António Melão AKA o Cameraman metálico – S02 E37
Hoje recebemos alguém que dedicou a sua vida à trincheira, a estar na linha da frente.
Com uma câmara ao pescoço e com metal no sangue, passou décadas a registar concertos, bandas, bastidores e momentos que fazem parte da memória do Underground, português e internacional.
Mais do que fotografar músicos, ajudou a documentar uma cultura inteira.
Hoje, temos connosco o mestre António Melão, mais conhecido por… Cameraman Metálico!
António Melão, o homem que levou a câmara para dentro do metal
António Francisco Melão, mais conhecido como Cameraman Metálico, é uma figura incontornável da fotografia musical portuguesa, sobretudo no universo do rock pesado e do heavy metal. Nascido em Serpa, no Alentejo, a 23 de março de 1955, cresceu ligado à Margem Sul, estudou em Almada e despertou para a fotografia por volta dos 18 anos. Sem formação académica na área, construiu-se como autodidata, através de livros, observação e prática, num tempo em que fotografar concertos implicava filme, diapositivos, paciência e margem mínima para erro.
A sua história cruza duas paixões que nunca mais se separaram: a imagem e a música. Começou a fotografar concertos em 1986 e, dois anos depois, adotou o nome Cameraman Metálico, pseudónimo que acabaria por se tornar mais reconhecido do que o seu próprio nome no meio musical português. Em 1989 editou por conta própria uma fanzine em xerox, descrita pela Câmara Municipal do Barreiro como a primeira em Portugal com fotografias originais, e em 1990 entrou no Diário Popular, onde assinou uma página semanal sobre heavy metal.
A carreira ganhou corpo entre a fotografia, o jornalismo musical e a divulgação cultural. Passou por publicações como Diário Popular, A Capital, Correio da Manhã, Blitz, Diário do Alentejo, Promúsica, Super Som, Rock Sound e Heavy Rock. No seu próprio blogue, apresenta-se como fotojornalista e crítico musical, com colaboração em jornais e revistas, e com ligação ao jornal Alentejo Popular como correspondente em Lisboa.
A sua arte nasce do contacto direto com o palco, com o público e com a cultura de concerto. Não é uma fotografia distante ou assética, é fotografia de pertença. O próprio Melão descreve o pit como um lugar onde se sente “um elemento do público que tem alguns privilégios”, reconhecido por quem está do outro lado da barreira. Essa proximidade ajuda a explicar a força do seu olhar: mais do que registar músicos, regista cenas, comunidades, gestos, suor, volume e memória.
O heavy metal tornou-se o território natural do seu trabalho, mas a sua relação com a música é mais ampla. Em entrevista à New in Seixal, contou que Jimi Hendrix lhe abriu as portas da música nos anos 70, antes de chegar a guitarras e sons cada vez mais pesados. A mesma fonte sublinha que Melão se tornou um dos principais divulgadores do heavy metal em Portugal nas décadas de 80 e 90.
Entre os episódios mais marcantes da sua carreira, surge a sua presença precoce em grandes festivais europeus, numa altura em que esse modelo ainda não estava consolidado em Portugal. O artigo do 24 Notícias recorda passagens por concertos e festivais, o facto de ter fotografado Nirvana em Cascais, Metallica com a Orquestra Sinfónica de Berlim, Motörhead em várias ocasiões, Scorpions numa digressão ibérica e bandas nacionais como Tarântula. Também trabalhou como fotógrafo oficial em festivais como Vilar de Mouros e Super Bock Super Rock, segundo o mesmo artigo.
A sua imagem pública é quase tão reconhecível como as suas fotografias: cabelo e barba brancos, colete com patches, máquina ao pescoço e presença constante em salas, festivais e bastidores. A New in Seixal descreve-o como alguém que não toca nem canta, mas que “faz parte da história da música em Portugal dos últimos 40 anos”. A frase é justa, porque António Melão não foi apenas testemunha da cena, ajudou a dar-lhe arquivo visual, legitimidade e memória.
A carreira também teve momentos difíceis. Em 2010, devido a uma doença grave, deixou de trabalhar, mas não desistiu da fotografia. Recuperou e passou a trabalhar diretamente com bandas, o que reforça a ideia de que a sua ligação à música nunca foi apenas profissional, mas também afetiva, comunitária e resistente.
Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido reconhecido em exposições e iniciativas públicas. Em 2015, o Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, recebeu “20 Fotos de Aço”, exposição promovida pela Câmara Municipal do Barreiro no âmbito do Mês da Fotografia. A mostra reuniu vinte imagens consideradas representativas da sua carreira e assinalou quase três décadas de percurso.
Em 2018, a World of Metal apoiou a exposição “20 Pictures of Steel”, no Quiet Riot Bar, em Almada, e em 2019 o festival MUVI, em Almada, acolheu uma exposição com imagens ligadas aos 40 anos de carreira dos Xutos & Pontapés. Em 2021, a Galeria Municipal de Corroios apresentou “40 Anos de Corroios, 40 Fotos”, exposição dedicada ao trabalho de António Francisco Melão, patente entre 21 de outubro e 4 de dezembro.
A sua atividade não se esgota na fotografia. Em 2023 abriu a loja Motörllica, no Centro Inova, no Miratejo, um espaço dedicado a música, discos, T-shirts, patches, vinis e cassetes. O nome junta Motörhead e Metallica, duas das bandas que mais ouviu, segundo explicou à New in Seixal. A loja funciona como extensão natural da sua identidade: arquivo, ponto de encontro, culto musical e partilha de merchandising sem lógica especulativa.
António Melão é, por isso, mais do que um fotógrafo de concertos. É um cronista visual do underground, um divulgador do metal, um sobrevivente de várias eras da imprensa musical e uma presença afetiva numa comunidade que o reconhece como um dos seus. A sua obra tem valor documental, mas também emocional: guarda aquilo que a música ao vivo tem de mais difícil de fixar, a energia irrepetível de um instante que desaparece assim que a luz se apaga.
Eventos e marcos significativos
1986, início da fotografia de concertos.
1988, adoção do pseudónimo Cameraman Metálico.
1989, edição de uma fanzine em xerox com fotografias originais.
1990, entrada no Diário Popular, com página semanal sobre heavy metal.
1995, entrada no jornal A Capital, onde ficou cerca de dez anos.
2012, Cameraman MetalFest, evento de beneficência no Revólver Bar, em Cacilhas, com receita destinada ao fotógrafo.
2015, participação em conversa no Talkfest’15 sobre festivais, marcas e fotografia.
2015, exposição “20 Fotos de Aço”, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro.
2018, exposição “20 Pictures of Steel”, no Quiet Riot Bar, Almada.
2019, exposição no âmbito do MUVI, em Almada, com imagens ligadas aos 40 anos dos Xutos & Pontapés.
2019, colaboração como autor na World of Metal Magazine #26.
2021, exposição “40 Anos de Corroios, 40 Fotos”, na Galeria Municipal de Corroios.
2023, abertura da loja Motörllica, no Miratejo.
2023, presença no programa Som Eterno, da Rádio Voz da Planície, para apresentar a Motörllica.






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